Cultivo de rins humanos em porcos para transplante já é possível


Segundo os dados mais recentes, só no Brasil há 41 mil pessoas na fila do transplante – 24 mil delas precisam de um rim. A lista de doadores, por outro lado, contou com apenas 3 mil voluntários em 2016. Uma saída para esse problema matemático básico são campanhas de conscientização do Ministério da Saúde. Outra, com jeito de ficção científica, é colocar um rim humano para “crescer”, quase como um vegetal, no interior do corpo de um porco – e então, quando o órgão estiver maduro, transplantá-lo para o corpo do paciente.


Parece absurdo, mas não é. Questões éticas à parte, já é possível criar embriões de porco em que os trechos do DNA responsáveis por criar rins suínos são substituídos por genes com instruções para criar rins humanos. Em outras palavras, nasce um porco com rins de gente, que poderiam, em tese, ser usados para diminuir o problema quase universal das filas de doação. Essa técnica, que atende pelo palavrão “xenotransplante”, tem muito potencial, mas animais híbridos ainda não saíram do laboratório por vários motivos. O principal são vírus.

Porcos vêm da barriga da mãe com vírus chamados PERVs. A sigla, do ponto de vista técnico, significa porcine endogenous retrovirus (retrovírus suínos endógenos). Na prática, é um trocadilho engraçadinho com “pervertido”. Ninguém sabe se eles têm potencial para causar doenças seres humanos, mas não vale a pena arriscar. A troca de vírus endógenos – os “de fábrica” – nunca causou um problema de saúde pública, mas já há pesquisas que os associam, ainda que sem evidências consideráveis, a câncer e esclerose múltipla. Ao longo da história, epidemias tão graves quanto a AIDS nasceram da troca de vírus comuns entre o Homo sapiens e outros animais.

Para o alívio das agências sanitárias, essa barreira acaba de ser derrubada, ainda que em um estágio puramente experimental, por pesquisadores da empresa de biotecnologia eGenesis. Em um artigo científico publicado na Science, eles explicam como é possível usar a nova (e já famosa) técnica de edição CRISPR-Cas9 para tirar os PERVs do material genético dos embriões, criando porquinhos seguros e livres de vírus para fazer xenotransplantes.

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